O COVEIRO:
Quando nasceu sua mãe não queria que seu filho fosse apenas mais um na pequena cidade onde morava, e pra ele se destacar dos outros ela escolheu um nome forte e diferente, Washington seria um nome perfeito, de peso sem duvidas.
Mas a vida não foi fácil pra ele, desde pequeno teve que abandonar os estudos para ajudar o pai como pedreiro, por ser franzino não era de fazer muita força, então o pai o colocava pra cavar, e assim seguia a vida, e o pai sempre reclamando do moleque: “Esse meu filho só nasceu pra uma coisa que preste, essa coisa foi pra fazer buracos e nada mais, esse indecente parece mais um filho de tatu do que meu próprio filho...”
Quando o seu pai morreu de cirrose, Washington foi ao enterro sem muita tristeza, apenas um vazio, uma falta de sentimento para com o pai do qual nunca foram íntimos. A única coisa que chamou a sua atenção foi à cova, nunca tinha visto uma antes, mas sabia que com certeza se ele quem tivesse feito seria muito melhor.
Menos de um ano da morte do pai, sua mãe também acabou morrendo de tristeza, a pobre mulher de vida dura em que a quantidade de rugas no rosto denunciava a quão sofrida foi à vida.
Washington fez questão de ele próprio cavar a cova da mãe, e na cidade nunca antes alguém caprichou tanto em uma cova, com exatos sete palmos, bem espaçosa e arejada, e desde então o próprio prefeito lhe fez uma oferta de emprego, seria o coveiro oficial da cidade.
Washington ainda lembrava perfeitamente o primeiro velório que fez como oficialmente um “coveiro”, foi horrível, não que não gostasse do que fazia, mas ver a tristeza das pessoas e o desespero de literalmente enterrar um ente querido, era algo de cortar o coração, mas agora depois de 50 anos ele já não ligava mais, era algo bom pra ele, como se estivesse recebendo mais um companheiro pra conversar. E desses companheiros o mais especial foi o “Seu Alcides”, o primeiro “defunto” que enterrou, e depois de tantos anos eles vivem conversando a noite, contando causos, bebendo e fumando pra passar a noite, coisa da qual Alcides era completamente contra, dizia que um dia ainda iria matá-lo.
Alcides andava preocupado com o companheiro, estava velho e solitário, com tosses cada vez mais compridas, mas o velhinho era teimoso, sentado entre as tumbas ele conversava com todos os mortos, geralmente os mais antigos, e todos sem exceção o aconselhavam, a parar de beber, fumar, conhecer pessoas novas e “vivas”. Mas Washington teimoso feito mula, se sentia bem ali, era respeitado, quando falava todos escutavam, não era “invisível” com na cidade, que as pessoas atravessavam a rua para não o cumprimentar.
Nessa noite de transição do Verão para o Outono o clima estava ótimo, uma brisa fresca deixava o cemitério com cara de praia, o céu limpo e a lua iluminava todos os túmulos, fato que deixou todas as almas felizes e um burburinho no ar, convidaram Washington para um “lual”, ele levou um garrafão de 5 litros de vinho barato, também trouxe o violão, a cantoria durou a noite toda, e quando o sol estava prestes a dar as caras e o vinho chegara ao fim, foi que Washington deitou em cima de um tumulo e adormeceu...
...Quando acordou, o brilho do sol quase o cegou, e apesar do céu azul o tempo estava geladinho, o que o fez arrepiar-se. Estranhou olhando de cima que alguém havia cavado uma cova nova, como se atreviam invadir o seu território, e pior, uma cova raza e torta, alguém iria ter que escutar umas poucas e boas por esse disparate. De repente sentiu uma mão amiga em seu ombro, era Alcides ao seu lado com um sorriso terno, do tipo que só se encontra em amigos verdadeiros, e com uma voz doce perguntou se ele havia gostado da festa de despedida? E foi quando Washington percebeu que estava olhando seu próprio enterro do alto de uma amoreira. Comentou que não havia muitas pessoas, e odiou o terno e o modo de como pentearam seu cabelo. Alcides perguntou se estava triste e ele respondeu que nunca gostou mesmo de estar vivo e que só iria sentir falta do cigarro e do violão e o amigo disse que pra onde ele iria tinha violão...

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