A BOLA 8:
... Vcs não entenderiam. Eu sou da época em que cachorros eram animais de estimação e comiam resto de comida, eram lavados com mangueira e sabão de coco, eles serviam como companheiros e como cão de guarda, ainda lembro-me do Alf, um vira-lata caramelo, que ia à padaria de manhã comigo comprar pão, me levava na escola e ia me buscar no horário certinho...
-Irineu vai jogar ou vai ficar falando ai? (Disse Pedrão, o dono do boteco em que o pessoal aposentado do bairro batia cartão pra tomar uns “rabo de galo” e jogar umas partidas de sinuca.)
E Seu Irineu cantou a bola, vermelha caçapa do meio, e com um corte ele matou a bola, e enquanto passava giz no taco continuou a sua ladainha...
...Na minha época agente tinha medo dos professores, tinha que fazer fila indiana, cantar o hino nacional, levantar a mão pra falar, a gente tinha medo de pedir pra ir ao banheiro, hj em dia os moleques estão batendo nos professores. A minha geração a gente respeitava os pais, ai se falasse um palavrão dentro de casa, hj quem é que educa essas crianças? Amarela caçapa do fundo. (E a bola desceu caçapa a baixo estralando.)
- Eita que o véio tá com o diabo no corpo, num erra uma.
Disse o Torrada que ficava na mesa do Jogo do Bicho, ficava o dia todo sentado ali pq tinha levado um tiro nas pernas e andava de muletas, e se tinha duas coisas que ele se destacava era na cor, tão negro quanto um Angolano e um rasta digno de um cantor de reagee e campeão em cuidar da vida de quem frequentava o bar do Pedrão, era conhecido como a “Radio Torrada” noticia atualizada a cada hora.
Continuou Irineu: A gente podia falar de religião, mesmo não concordando a gente respeitava, hj tem uma guerra santa acontecendo na surdina, vcs tem que me escutar, logo mais vai ter homem bomba no Brasil! (Disse ele em voz alta, quase gritando, e lá se foi à bola verde.)
Pedrão já estava impaciente com esse jogo praticamente solo, e foi pra trás do balcão abriu uma cerveja e puxou um banquinho enquanto Irineu puxou do bolso uma flanelinha e começou a lustrar o seu taco e continuou a falar:
- Saudades mesmo eu tenho da minha Preta, eu contei pra vcs de como nos conhecemos?
E todos no bar disseram em uníssono um sonoro sim. E quando ficou um silencio com a concentração para Irineu matar a bola amarela Irineu respirou profundamente e com um toque suave ele rolou a bola branca quase em câmera lenta e em quase 5 segundos a bola atravessou a mesa e com uma “triscada” de leve na bola amarela deslizou para o buraco. E em uma quase divagação ele suspirou e disse:
Ivete foi mais que uma boa amante, foi minha companheira, e a melhor amiga que um homem desejaria ter. Nós nos respeitávamos, sabíamos escutar uns aos outros, e sempre andávamos de mãos dadas, até o seu ultimo suspiro de vida ela estava ali segurando minha mão...
Outro silencio constrangedor no bar, até que Torrada fala:
- Porra, vamos deixar com essa deprê de lado, eu sou o próximo, e essa partida esta durando uma eternidade! Irineu vai matar a oito agora ou é pra amanhã?
- Calma rapaz, esse é o problema desses jovens, sempre apressados, sempre correndo, mesmo não fazendo ideia para qual direção estão indo.
Não sei se Irineu estava demorando pra irritar Pedrão e Torrada ou se estava se concentrando pra matar a bola preta, mas que foi a passada de giz mais demorada da historia dos desafios de bilhar. A bola até que não estava tão difícil, era só cortar no meio e tomar cuidado pra não dar branca. E foi ai que entrou dois caras armados anunciando o assalto, com o susto Torrada tentou reagir com sua muleta e um dos ladrões não pensou duas vezes e atirou duas vezes no Torrada, e em seguida eles fugiram sem levar nada, a sorte é que um dois tiros ele errou e o outro foi de raspão, mas com o susto dos tiros Seu Irineu botou a mão no peito e caiu no chão, Pedrão não sabia se ligava pra policia ou se acudia o amigo. Era um infarto, e devido a idade Seu Irineu ele acabou morrendo, mas não antes de segurar nas mãos do amigo Pedrão e dizer “Que saudades eu sinto dos velhos tempos Pedro... Eu ia matar a bola preta...Pendura a conta e quando eu voltar eu pago!”

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